

«Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas, e por meio de
quem tudo existe, em trazendo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse pelos
sofrimentos o autor da salvação deles» (Hebreus 2.10). Quando se fala
que Jesus precisou se aperfeiçoar, e que seu ministério público foi
pautado pelo aperfeiçoamento, muitos ficam até escandalizados e procuram se
esquivar dessa realidade. Aqueles que negam ou não acreditam que Jesus
precisou se aperfeiçoar é porque desconhecem o sentido da encarnação. É
porque não conseguem ver que Jesus, o Cristo, era totalmente humano. Ou
ainda, tentar afirmar de que o aperfeiçoamento de Jesus não foi real,
claramente isto é negar inteiramente a sua humanidade. Neste caso, se o
aperfeiçoamento de Jesus não foi real, então a sua morte também não foi
real, somente fingia sê-la. A igreja moderna, não aceita o fato de que
Cristo em seu Ministério terreno precisou se aperfeiçoar, pois acham que
como Deus que ele era, não precisava passar por um aperfeiçoamento, pois
Deus é perfeito em todos os sentidos. Na verdade, os cristãos de maneira
geral têm identificado Jesus como sendo docético, ou seja, que apenas
parecia ser humano.
É bom estarmos bem conscientes de que Jesus Cristo foi inteiramente
humano, e, não uma espécie de “semideus”. A encarnação de Yahweh na pessoa
de Jesus Cristo colocou limites à sua Pessoa, se não houvesse tais limites,
então não seria uma encarnação, talvez uma fusão, como defende o
trinitarianismo. «Pelo que convinha que em tudo fosse feito semelhante a seus
irmãos, para se tornar um sumo sacerdote misericordioso e fiel nas coisas
concernente a Deus, a fim fazer propiciação pelos pecados do povo» (Hebreus
2.17).
«Em que sentidos Cristo foi aperfeiçoado? Isto pode ser visto nos
pontos abaixo discriminados:
1. Não pode significar purificado de qualquer fraqueza moral ou pecado, pois
este livro (Hebreus) defende a impecabilidade de Cristo (ver Heb 4.15; João
8.46; II Cor 5.21; Heb 7.26; I Ped 1.19 e 2.22).
2. Mas ao identificar-se com o homem, ele tomou sobre si mesmo as
imperfeições humanas como ser, precisando ser aperfeiçoado segundo as
«qualidades morais positivas» de Deus, como a fé, o amor, a bondade, a justiça
etc. (Gál 5.22,23). Na qualidade de homem, pois, Jesus teve de aprender a
buscar as perfeições divinas, tal como todos os homens devem fazê-lo. Nessa
inquirição espiritual ele se tornou o nosso grande «Líder». E então, sendo
aperfeiçoado pessoalmente, veio a mostrar a outros homens como se deve buscar a
perfeição. Para todos os remidos o «estar aperfeiçoado» excede em muito à
ausência de pecado. Significa, igualmente, a participação em todas as perfeições
positivas e em todos os atributos morais de Deus. Estritamente falando, somente
Deus é perfeito, embora que possa haver outras criaturas que são impecáveis.
Cristo, em sua humanidade, buscou e obteve as perfeições de Deus, tal como devem
fazê-lo todos quantos estão remidos nele.
3. Além disso, Jesus foi aperfeiçoado em sua missão remidora no sentido que
tudo quanto foi exigido dele foi formado nele, mediante os sofrimentos. O
redentor, a fim de que pudesse remir, teve de morrer. Sua morte e ressurreição
eram elementos necessários para qualificá-lo como perfeito e completo redentor.
Ele não era um redentor imperfeito e incompleto.
4. Uma vez que a missão de Cristo se completou, ele foi glorificado. Isso o
aperfeiçoou, certamente. Ele estava incompleto sem tal elemento. O próprio
homem, embora fique totalmente sem pecado, se não tiver obtido total
glorificação em Cristo, ainda não está aperfeiçoado.
5. O Líder ou Autor da redenção deve possuir tudo quanto ele espera da parte
dos remidos. É mister que sua humanidade seja aperfeiçoada; e deve ter em si
mesmo toda a experiência humana, como a alegria e a tristeza, como o esforço
para obter a vitória na inquirição espiritual. É mister que tenha tudo e passe
por tudo quanto os remidos experimentarão. Ora, isso ocorreu na encarnação, e
foi um aperfeiçoamento do Redentor. Nisso se vê quão profundamente ele está
associado a nós. Ele tomou sobre si tudo quanto somos, a fim de podermos obter
tudo quanto ele é, em sua glorificação, em que ele entrou, devido à sua
perfeição». (Champlin)
O que Jesus fez, fê-lo como homem; o que ele sofreu e aprendeu, fê-lo como
homem, suas obras poderosas eram feitas através do poder do Espírito Santo; e
esse mesmo poder o transformou e espiritualizou como homem, tal e qual deve
suceder a todos os remidos. De maneira bem real, Jesus, como homem, precisava
ser aperfeiçoado e o foi em sua experiência humana. Por semelhante modo, seus
irmãos devem passar eventualmente por esse processo de aperfeiçoamento. Em sua
função mais elevada, isso consiste em trazer o infinito para o finito, de trazer
o divino para o que é humano. «Porque não temos um sumo sacerdote que não possa
compadecer-se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi
tentado, mas sem pecado» (Hb 4.15)
«...compadecer-se...» Temos no grego o vocábulo sumpatheo, que
significa «mostrar simpatia por», «simpatizar com», dando a idéia de sentir e
compreender nossas fraquezas. Cristo sabe o que sofremos e sob quais condições
vivemos; mas ele também sente o peso e a carga da existência mortal, devido ao
próprio fato que compartilhou de nossa natureza e experiência humanas.
«...fraquezas...» Isso fala de debilidades morais e físicas, de
paixões humanas, de limitações, de impulsos biológicos, pontos de vista morais
imperfeitos, de consciência que predispõe ao pecado, que facilita a prática do
pecado e dificultam tremendamente a vitória moral. Ora, Cristo participou das
emoções humanas, como o temor, a tristeza, o temor da morte. Desse modo ele
aprendeu a confiar. Obteve a vitória. Cristo conhece experimentalmente todas
essas coisas, pois participava perfeitamente das condições humanas. Não estava
acima delas; participou diretamente das mesmas. Além de preparar a Cristo para a
cruz, para que ele seja um sacrifício sem mancha, isso também preparou-o para o
seu oficio sumo sacerdotal, pois só podia interceder por um povo que
compreendesse totalmente, por quem tivesse absoluta simpatia; mostrou-nos também
como nos devemos desenvolver e ocupar da inquirição espiritual.
Cristo venceu tudo, mas «...sem pecado...». Jesus mostrou que a
natureza humana não precisa do pecado como um de seus elementos. Pois, a
verdadeira natureza humana é impecável, como eram Adão e Eva, antes de haverem
sido enganados pelo Diabo. A natureza humana pervertida é que peca. Precisando
então ser redimida. Jesus era possuidor da verdadeira natureza humana, que é
impecável. A impecabilidade de Cristo o qualificou-o preeminentemente para o
sumo sacerdócio, pois ele, diferentemente de outros, não precisava oferecer
sacrifício por si mesmo. A impecabilidade de Cristo, pois, deve significar mais
do que a rejeição de atos pecaminosos; ele nunca favoreceu à atitude do pecado;
não pecou em seus desejos e em seus motivos. Muito menos em suas ações. Cristo
resistiu todas as tentações humanas, sem ceder às mesmas. Cristo era humano tal
a qual somos humanos; não possuía alguma natureza humana diferente, como a do
homem «antes da queda». Ele foi enviado «na semelhança de carne pecaminosa»,
isto é, compartilhou da mesma natureza dos homens, a qual fora debilitada e
degradada pelo pecado, embora ele mesmo não tivesse qualquer pecado pessoal.
Contudo, ele compartilhou do «desastre da natureza humana», que resulta do
pecado.
Tudo que Cristo fez, sofreu e experimentou, fê-lo como homem.
Quanto as suas vitórias e milagres Ele aprendeu a usar o poder do Espírito
Santo, que está a disposição de todos os homens; por isso, a declaração que diz
que podemos fazer obras como as suas, e maiores ainda (João 14.12). Ele se
limitou às condições humanas a fim de mostrar o grande potencial da humanidade
quando impulsionada pelo Espírito Santo. Esse poder o transformou como homem
espiritualizando-o, tornando o Pioneiro do Caminho, e não apenas o próprio
Caminho. Como mostrou-nos como os homens podem ser espiritualizados, assim
chegando a participar de sua natureza celestial, tal como ele antes compartilhou
perfeitamente da nossa humilde humanidade.
Por conseguinte, o sofrimento da morte experimentado por
Jesus, foi inteiramente necessário para qualificá-lo a funcionar como Salvador
dos homens.
Fatos a considerar
1. Cristo se identificou totalmente conosco, em nossa natureza humana, a fim
de que, eventualmente, pudéssemos identificar-nos totalmente com ele, em sua
natureza divina. Portanto, a própria salvação consiste da condução de «muitos
filhos» à glória (ver Hebreus 2.10).
2. Em sua encarnação, ele se autolimitou, e, por isso mesmo, usualmente
realizou tudo pelo poder de sua humanidade espiritualizada, mediante a virtude
da presença e da capacitação dada pelo Espírito Santo.
3. Embora impecável (ver João 8.46 e Heb 4.15), Cristo aprendeu certas coisas
por meio daquilo que sofreu, e assim, como homem, foi aperfeiçoado. Isso é nos
ensinado em Hebreus 5.8,9. Por conseguinte, em tudo isso ele foi aperfeiçoado
como simples homem, e não como Deus. b Como homem, ele demonstrou aos demais
homens qual o caminho do desenvolvimento espiritual, porquanto realmente
atravessou esse caminho.
4. Ele tomou sobre si o nosso tipo de natureza humana, debilitada como está
pelo pecado (ver Rom 8.3), embora nunca houvesse cometido pecado. Não obstante,
em sua humanidade, ele teve que abordar os mesmos problemas e fraquezas que nos
afligem. Em Jesus, pois, Deus irrompeu no mundo, e assim permitiu que os homens
alcançassem autêntica vitória espiritual.